Banda: LIVE
Álbum: Secret Samadhi
Música: Turn my head
A cera derrete e pinta as colunas brancas e beges com vermelhos e azuis. Lágrimas vêm, mas choros são discretos. Há tantas luzes no escuro do céu, mas são os pequenos sobrados que nos levam até lá. Cercas de ferro não ameaçam e policiais orientam todos com calma. Quase não acredito que este é o século vinte e um e o mundo é um lugar de mortes impensadas e leis doentes. Estou na terra dos romanos, mas as cores nos rostos são africanas, latinas, polacas e os sotaques são entrecruzados e distingo poucas coisas enquanto a primavera européia nos conduz até lá. O som dos corais abraça meus ossos e percorre meus pulmões contaminados pelas décadas de cigarro e vícios prestigiados. Algumas crianças estão em garupas e outras param para apontar para o chão repleto de textos em giz colorido. Grandes bandeiras são carregadas, desfraldadas, erguidas e se encontram umas com as outras em meio à conversas discretas, mãos dadas e luz. Muita luz. Cai a tarde e os holofotes vindos das vans de canais de tevê acendem-se feito semideuses. Finalmente nos aproximamos do centro da praça e já não há ritual para se enxergar a não ser aquele feito por nós mesmos. Uma chinesa fotografa sua amiga ao lado de um pôster improvisado por um ciclista italiano. Um afegão pára em frente a uma vela e a ele se juntam quatro alemães. Não trocam uma frase. Dois brasileiros seguram um terço, um britânico fala ao celular aos sussurros. Minha tosse recomeça apesar do ar da primavera estar pedindo passagem para dias melhores. Um avião sobrevoa próximo e há comentários e olhares se voltando com temor e curiosidade para o céu. Algumas vozes falam em megafones e o momento parece que vai se perder. Uma senhora trajando luto me alcança um chá quente. Enquanto bebo, ela toca em meu ombro e pede para se aproximar. Sussurra em meu ouvido algo que não entendo e aponta para que eu olhe para trás: então vejo a multidão sentando pouco a pouco me esforço para não tentar entender tudo aquilo, apenas achar meu lugar junto aos iguais.
Esse blog começou guardando os textos publicados semanalmente no site argumento.net, coluna Soundtracks. Mas isso tudo mudou há horas.
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