Banda: REM
Álbum: Up
Música: Falls to climb
- Se eu te contasse um segredo, você prometeria mantê-lo?
- Eu gostaria de responder “sim”, mas a verdade é que tenho dificuldade em manter segredos. Eu tenho dificuldade em manter coisas em mim.
- E se eu te contasse um segredo teu?
***
Toda vez que você aparece por escrito na minha frente eu corro até seu edifício e fico esperando.
***
Ontem, deixei Kubrick tomar conta de mim quando olhei as teclas buscarem os céus e o chão em segundos depois do meu soco perfeito no centro do teclado.
***
- Se eu te pedisse pra ficar em silêncio, só me ouvindo falar sem coerência, seria demais?
- Seria. Eu não consigo mais ser por ti.
***
Vejo os olhinhos vermelhos de dois em dois sobre a manta de cimento sujo e listras brancas abrir caminho para uma corrida de um só em mundo com gente demais.
***
Ninguém toca no meu magma, o centro do universo é tão longe e não quero mais conhecê-lo. Ninguém toca no meu magma e é possível que a melhor notícia seja a de que ele não exista.
***
- Posso caminhar contigo depois de tudo isso? Depois de eu não cumprir minhas parcas promessas e te deixar apenas com meus piores horários e melhor sarcasmo?
- Pode. Toda vez que eu te vejo por escrito eu vou até o teu prédio. Nunca mais foi a mesma coisa, nunca mais enxerguei o teu magma, nunca andamos atrás dos olhinhos vermelhos, Kubrick nos odeia porque somos rasos da pior maneira possível: tentando não ser. Posso te contar um segredo?
- Não, temos que duelar.
Esse blog começou guardando os textos publicados semanalmente no site argumento.net, coluna Soundtracks. Mas isso tudo mudou há horas.
Domingo, Junho 12, 2005
Banda: Dire Straits
Música: Brothers in Arms
Álbum: Brothers in Arms
Essas montanhas silenciosas me contemplam e eu puxo um cigarro do bolso da minha jaqueta e imagino os lugares que um dia pensei que receberiam medalhas costuradas. Essas montanhas silenciosas se postam gigantescas perto dos meus olhos e presas em invisíveis cordas pelo céu plúmbeo. Já faz longos minutos que nos mantemos quietos na trincheira, afundados em nossos pensamentos e refazendo as contas dos dias que faltam para voltar. 432, 95, 89, 126. O barro que agora pinta meus coturnos está seco e brinco com um palito de fósforo quebrando os pedaços endurecidos e reencontrando as saliências do solado. De repente, os primeiros gritos. No topo do morro, avistamos os primeiros vultos verdes correndo e carregando outros vultos, pelos braços, pelas pernas, nas garupas. Alguns tiros equivocados são disparados e o caos se instaura entre comandos contraditórios de cessar-fogo. Agora estamos todos correndo morro acima e os que carregavam os corpos agora têm face. Há choro e há vozes erguidas e tentativas de massagem cardíaca e estancamento de sangue aqui e ali. Tentamos nos proteger entre arbustos e rochas. Nos vestimos iguais e pensei desde o primeiro dia que tudo isso – essa guerra, as ordens, a vitória - seria pouco para nos unirmos. E agora nos despedimos uns em frente aos outros, sem saber como seremos quando vestirmos nossos jeans, colocarmos moedas em jukeboxes e cantarmos Elvis para impressionar as meninas que nunca teremos. Penso na minha casa, nos meus pais, nos meus avós, na escola assim que minhas únicas lágrimas beijam a mira da espingarda e os tiros atingem o topo da montanha, onde os alemães descem com vigor e quantidade. Logo me vejo sem munição e jogo-me covardemente contra o chão, fingindo ter sido atingido. Rezo descontroladamente enquanto vozes ríspidas passam por mim sob botas mais reluzentes. Abro os olhos para avistar as gotas de chuva lavando o solo germânico semeado de meninos presos em capacetes pintados com apelidos de guerra lavo meu rosto e começo a recolher os colares prateados morro acima.
Música: Brothers in Arms
Álbum: Brothers in Arms
Essas montanhas silenciosas me contemplam e eu puxo um cigarro do bolso da minha jaqueta e imagino os lugares que um dia pensei que receberiam medalhas costuradas. Essas montanhas silenciosas se postam gigantescas perto dos meus olhos e presas em invisíveis cordas pelo céu plúmbeo. Já faz longos minutos que nos mantemos quietos na trincheira, afundados em nossos pensamentos e refazendo as contas dos dias que faltam para voltar. 432, 95, 89, 126. O barro que agora pinta meus coturnos está seco e brinco com um palito de fósforo quebrando os pedaços endurecidos e reencontrando as saliências do solado. De repente, os primeiros gritos. No topo do morro, avistamos os primeiros vultos verdes correndo e carregando outros vultos, pelos braços, pelas pernas, nas garupas. Alguns tiros equivocados são disparados e o caos se instaura entre comandos contraditórios de cessar-fogo. Agora estamos todos correndo morro acima e os que carregavam os corpos agora têm face. Há choro e há vozes erguidas e tentativas de massagem cardíaca e estancamento de sangue aqui e ali. Tentamos nos proteger entre arbustos e rochas. Nos vestimos iguais e pensei desde o primeiro dia que tudo isso – essa guerra, as ordens, a vitória - seria pouco para nos unirmos. E agora nos despedimos uns em frente aos outros, sem saber como seremos quando vestirmos nossos jeans, colocarmos moedas em jukeboxes e cantarmos Elvis para impressionar as meninas que nunca teremos. Penso na minha casa, nos meus pais, nos meus avós, na escola assim que minhas únicas lágrimas beijam a mira da espingarda e os tiros atingem o topo da montanha, onde os alemães descem com vigor e quantidade. Logo me vejo sem munição e jogo-me covardemente contra o chão, fingindo ter sido atingido. Rezo descontroladamente enquanto vozes ríspidas passam por mim sob botas mais reluzentes. Abro os olhos para avistar as gotas de chuva lavando o solo germânico semeado de meninos presos em capacetes pintados com apelidos de guerra lavo meu rosto e começo a recolher os colares prateados morro acima.
Banda: Coldplay
Música: Amsterdam
Álbum: DVD Coldplay LIVE 2003
A vida é febril, nunca disse isso pra você. Mas ela é. Eu luto há um bom tempo para que ela deixe de ser assim, mas é mais forte do que eu. Veja as estrelas, elas não estão lá por nós. Infelizmente é assim. A vida é febril, estamos sempre buscando novas maneiras de ingressar no estado catatônico de aceitar as primeiras verdades e tratá-las como últimas novidades. Agora que você me vê no leito, já é possível entender como o tempo corre diferente pra nós dois. Enquanto eu enxergo os segundos se misturarem com os conta-gotas do soro, você não consegue fazer seu Pager parar de tocar, nem mesmo para ouvirmos juntos os galhos baterem nas janelas e a enfermeira trazendo a bandeja de remédios diários. A vida é febril e eu grito por dentro, porque nunca consegui dizer as coisas pra você de um jeito pouco pensado e muito mais sentido. O destino é aquilo que você constrói enquanto não rasga as regras, sai da cama e se dá alta, grita nos corredores, assusta as visitas, pula em direção ao sol e chora ao chegar em uma praça cheia de gente correndo com relógios à prova d´água e tênis de múltiplas combinações de amortecimento. A vida é febril mas já está passando, já está passando e eu estou melhor porque as injeções me ajudam a ficar menos perto de ser aquilo que você nunca vai conhecer. Eu não posso nem dizer que não queria que fosse assim. Ajude-me a levantar e caminhar pelo quarto. Não tenha pena de mim nem ouse sonhar em um mundo onde seríamos uma história feita de primeiros encontros inacreditáveis e estrelas feitas para nós. Esse é um mundo que não nos pertence e não nos sintamos mal por isso. Agora coloque o travesseiro atrás da minha cabeça e me espere pegar no sono e beije minha testa. A vida é febril mas já passou.
Música: Amsterdam
Álbum: DVD Coldplay LIVE 2003
A vida é febril, nunca disse isso pra você. Mas ela é. Eu luto há um bom tempo para que ela deixe de ser assim, mas é mais forte do que eu. Veja as estrelas, elas não estão lá por nós. Infelizmente é assim. A vida é febril, estamos sempre buscando novas maneiras de ingressar no estado catatônico de aceitar as primeiras verdades e tratá-las como últimas novidades. Agora que você me vê no leito, já é possível entender como o tempo corre diferente pra nós dois. Enquanto eu enxergo os segundos se misturarem com os conta-gotas do soro, você não consegue fazer seu Pager parar de tocar, nem mesmo para ouvirmos juntos os galhos baterem nas janelas e a enfermeira trazendo a bandeja de remédios diários. A vida é febril e eu grito por dentro, porque nunca consegui dizer as coisas pra você de um jeito pouco pensado e muito mais sentido. O destino é aquilo que você constrói enquanto não rasga as regras, sai da cama e se dá alta, grita nos corredores, assusta as visitas, pula em direção ao sol e chora ao chegar em uma praça cheia de gente correndo com relógios à prova d´água e tênis de múltiplas combinações de amortecimento. A vida é febril mas já está passando, já está passando e eu estou melhor porque as injeções me ajudam a ficar menos perto de ser aquilo que você nunca vai conhecer. Eu não posso nem dizer que não queria que fosse assim. Ajude-me a levantar e caminhar pelo quarto. Não tenha pena de mim nem ouse sonhar em um mundo onde seríamos uma história feita de primeiros encontros inacreditáveis e estrelas feitas para nós. Esse é um mundo que não nos pertence e não nos sintamos mal por isso. Agora coloque o travesseiro atrás da minha cabeça e me espere pegar no sono e beije minha testa. A vida é febril mas já passou.
Banda: The Beatles
Álbum: Let it Be
Música: Across the universe
Ele está no canto do bar, próximo a uma janela que dava para a escuridão chuvosa da rua. A fumaça interna do local o protegia do inverno e enquanto observa as pessoas construindo um só som repleto de diferenças inaudíveis nas conversas, começa a desenhar com os dedos no vidro da janela enquanto espera por seus amigos.Pelo seu desenho que contrasta com o vidro contaminado pelo ambiente abafado, ele vê seus amigos chegando. Percebe os mesmos pequenos empurrões e a conversa descontraída que parece nunca os abandonar. Mesmo sem poder ouvir, ele se sente confortável em saber que eles simplesmente estão ali. A chuva começa a apertar do lado de fora. Seus amigos entram e ele sabe que agora terá de se concentrar para fazer os sons do bar ficarem audíveis, de deixar a doce superficialidade dos assuntos invadirem seu encastelamento. Os amigos o saúdam, tomam conta da mesa, os casacos abraçam as cadeiras, as pequenas observações sobre as meninas que estão por perto são compartilhadas. E então um estrondo se faz ouvir, mesmo que abafado pela grossa barreira de álcool e músicas da jukebox, e a luz desaparece. Vários gritos e muitas risadas invadem o ambiente, como se fossem chopp deslizando das torneiras para os copos longos. Batidas na mesa e alguns começam a entoar canções a capella, com a afinação que só a teceira dose pode dar. Ele se levanta e encosta-se na parede, coloca os braços por detrás da cabeça e sorri no escuro, gostando de imaginar que seu desenho no vidro agora é todo o bar, como se este pedaço tão igual a qualquer outro do mundo não estivesse mais fechado. Como se o universo fluísse por entre as mesas. Como se o universo fosse o conjunto das risadas, a cantoria improvisada, as cantadas mal-feitas, os bilhetes com telefones, os garçons, os cartazes sobrepostos na parede. Como se a luz não precisasse voltar, porque ela foi para dentro do desenho, e dentro do desenho o reencontrou.
Álbum: Let it Be
Música: Across the universe
Ele está no canto do bar, próximo a uma janela que dava para a escuridão chuvosa da rua. A fumaça interna do local o protegia do inverno e enquanto observa as pessoas construindo um só som repleto de diferenças inaudíveis nas conversas, começa a desenhar com os dedos no vidro da janela enquanto espera por seus amigos.Pelo seu desenho que contrasta com o vidro contaminado pelo ambiente abafado, ele vê seus amigos chegando. Percebe os mesmos pequenos empurrões e a conversa descontraída que parece nunca os abandonar. Mesmo sem poder ouvir, ele se sente confortável em saber que eles simplesmente estão ali. A chuva começa a apertar do lado de fora. Seus amigos entram e ele sabe que agora terá de se concentrar para fazer os sons do bar ficarem audíveis, de deixar a doce superficialidade dos assuntos invadirem seu encastelamento. Os amigos o saúdam, tomam conta da mesa, os casacos abraçam as cadeiras, as pequenas observações sobre as meninas que estão por perto são compartilhadas. E então um estrondo se faz ouvir, mesmo que abafado pela grossa barreira de álcool e músicas da jukebox, e a luz desaparece. Vários gritos e muitas risadas invadem o ambiente, como se fossem chopp deslizando das torneiras para os copos longos. Batidas na mesa e alguns começam a entoar canções a capella, com a afinação que só a teceira dose pode dar. Ele se levanta e encosta-se na parede, coloca os braços por detrás da cabeça e sorri no escuro, gostando de imaginar que seu desenho no vidro agora é todo o bar, como se este pedaço tão igual a qualquer outro do mundo não estivesse mais fechado. Como se o universo fluísse por entre as mesas. Como se o universo fosse o conjunto das risadas, a cantoria improvisada, as cantadas mal-feitas, os bilhetes com telefones, os garçons, os cartazes sobrepostos na parede. Como se a luz não precisasse voltar, porque ela foi para dentro do desenho, e dentro do desenho o reencontrou.
Banda: LIVE
Álbum: Secret Samadhi
Música: Turn my head
A cera derrete e pinta as colunas brancas e beges com vermelhos e azuis. Lágrimas vêm, mas choros são discretos. Há tantas luzes no escuro do céu, mas são os pequenos sobrados que nos levam até lá. Cercas de ferro não ameaçam e policiais orientam todos com calma. Quase não acredito que este é o século vinte e um e o mundo é um lugar de mortes impensadas e leis doentes. Estou na terra dos romanos, mas as cores nos rostos são africanas, latinas, polacas e os sotaques são entrecruzados e distingo poucas coisas enquanto a primavera européia nos conduz até lá. O som dos corais abraça meus ossos e percorre meus pulmões contaminados pelas décadas de cigarro e vícios prestigiados. Algumas crianças estão em garupas e outras param para apontar para o chão repleto de textos em giz colorido. Grandes bandeiras são carregadas, desfraldadas, erguidas e se encontram umas com as outras em meio à conversas discretas, mãos dadas e luz. Muita luz. Cai a tarde e os holofotes vindos das vans de canais de tevê acendem-se feito semideuses. Finalmente nos aproximamos do centro da praça e já não há ritual para se enxergar a não ser aquele feito por nós mesmos. Uma chinesa fotografa sua amiga ao lado de um pôster improvisado por um ciclista italiano. Um afegão pára em frente a uma vela e a ele se juntam quatro alemães. Não trocam uma frase. Dois brasileiros seguram um terço, um britânico fala ao celular aos sussurros. Minha tosse recomeça apesar do ar da primavera estar pedindo passagem para dias melhores. Um avião sobrevoa próximo e há comentários e olhares se voltando com temor e curiosidade para o céu. Algumas vozes falam em megafones e o momento parece que vai se perder. Uma senhora trajando luto me alcança um chá quente. Enquanto bebo, ela toca em meu ombro e pede para se aproximar. Sussurra em meu ouvido algo que não entendo e aponta para que eu olhe para trás: então vejo a multidão sentando pouco a pouco me esforço para não tentar entender tudo aquilo, apenas achar meu lugar junto aos iguais.
Álbum: Secret Samadhi
Música: Turn my head
A cera derrete e pinta as colunas brancas e beges com vermelhos e azuis. Lágrimas vêm, mas choros são discretos. Há tantas luzes no escuro do céu, mas são os pequenos sobrados que nos levam até lá. Cercas de ferro não ameaçam e policiais orientam todos com calma. Quase não acredito que este é o século vinte e um e o mundo é um lugar de mortes impensadas e leis doentes. Estou na terra dos romanos, mas as cores nos rostos são africanas, latinas, polacas e os sotaques são entrecruzados e distingo poucas coisas enquanto a primavera européia nos conduz até lá. O som dos corais abraça meus ossos e percorre meus pulmões contaminados pelas décadas de cigarro e vícios prestigiados. Algumas crianças estão em garupas e outras param para apontar para o chão repleto de textos em giz colorido. Grandes bandeiras são carregadas, desfraldadas, erguidas e se encontram umas com as outras em meio à conversas discretas, mãos dadas e luz. Muita luz. Cai a tarde e os holofotes vindos das vans de canais de tevê acendem-se feito semideuses. Finalmente nos aproximamos do centro da praça e já não há ritual para se enxergar a não ser aquele feito por nós mesmos. Uma chinesa fotografa sua amiga ao lado de um pôster improvisado por um ciclista italiano. Um afegão pára em frente a uma vela e a ele se juntam quatro alemães. Não trocam uma frase. Dois brasileiros seguram um terço, um britânico fala ao celular aos sussurros. Minha tosse recomeça apesar do ar da primavera estar pedindo passagem para dias melhores. Um avião sobrevoa próximo e há comentários e olhares se voltando com temor e curiosidade para o céu. Algumas vozes falam em megafones e o momento parece que vai se perder. Uma senhora trajando luto me alcança um chá quente. Enquanto bebo, ela toca em meu ombro e pede para se aproximar. Sussurra em meu ouvido algo que não entendo e aponta para que eu olhe para trás: então vejo a multidão sentando pouco a pouco me esforço para não tentar entender tudo aquilo, apenas achar meu lugar junto aos iguais.
Artista: Sinead O´Connor
Música: On Ragland Road
Álbum: Common Ground – voices of modern Irish music
Pensei que não haveria como acreditar sem ver. Não haveria como chorar sem tocar. O avião mal pousara e meus primeiros passos na escada molhada pela chuva miúda pesavam como poucas vezes senti. Mulheres carregando crianças visivelmente mal nutridas e homens com grandes feridas perto dos olhos, crianças espremidas entre os adultos de braços estendidos, enquanto os pacotes de bolacha, curativos e roupas passavam por mim e os demais voluntários tomavam conta do ambiente sem grande cerimônia ou pesar. Os novatos, como eu e alguns outros, caminhávamos feitos Neil Armstrongs num funeral de vivos. Nossas camisetas logo receberiam os primeiros toques de pequenas mãos e logo os rostos dos primeiros meninos e meninas grudariam-se como se fossemos os pais que o oceano levou há poucos meses. Os líderes do grupo nos empurravam em direção ao ônibus, pois a população que nos esperaria era muito mais enferma e pobre que estes morando perto do campo de pouso. Voltei meus olhos para trás mais uma vez e busquei meu lugar enquanto as janelas do transporte emolduravam tanta falta de luz nos rostos daquela gente. Senti-me pouco nobre por não chorar como a pequena freira italiana que não conseguia se livrar dos braços cansados que a queriam. Minhas mãos apertavam o banco da frente e os voluntários antigos gritavam muito pedindo para o motorista partir. Finalmente, pediram que eu descesse e ajudasse a italiana. Fazendo força e provocando mais gritos incompreensíveis na semântica mas tão explícitos no sentido, retirei a religiosa e a coloquei dentro do ônibus. Órfãos, pais sem família e jovens perdidos para sempre ficavam para trás e eu permanecia de pé dentro do ônibus. Meu corpo tremia e senti um cobertor sendo colocado em minhas costas. Quando meus olhos fecharam, encontrei meus filhos e chorei pelo meu egoísmo.
Música: On Ragland Road
Álbum: Common Ground – voices of modern Irish music
Pensei que não haveria como acreditar sem ver. Não haveria como chorar sem tocar. O avião mal pousara e meus primeiros passos na escada molhada pela chuva miúda pesavam como poucas vezes senti. Mulheres carregando crianças visivelmente mal nutridas e homens com grandes feridas perto dos olhos, crianças espremidas entre os adultos de braços estendidos, enquanto os pacotes de bolacha, curativos e roupas passavam por mim e os demais voluntários tomavam conta do ambiente sem grande cerimônia ou pesar. Os novatos, como eu e alguns outros, caminhávamos feitos Neil Armstrongs num funeral de vivos. Nossas camisetas logo receberiam os primeiros toques de pequenas mãos e logo os rostos dos primeiros meninos e meninas grudariam-se como se fossemos os pais que o oceano levou há poucos meses. Os líderes do grupo nos empurravam em direção ao ônibus, pois a população que nos esperaria era muito mais enferma e pobre que estes morando perto do campo de pouso. Voltei meus olhos para trás mais uma vez e busquei meu lugar enquanto as janelas do transporte emolduravam tanta falta de luz nos rostos daquela gente. Senti-me pouco nobre por não chorar como a pequena freira italiana que não conseguia se livrar dos braços cansados que a queriam. Minhas mãos apertavam o banco da frente e os voluntários antigos gritavam muito pedindo para o motorista partir. Finalmente, pediram que eu descesse e ajudasse a italiana. Fazendo força e provocando mais gritos incompreensíveis na semântica mas tão explícitos no sentido, retirei a religiosa e a coloquei dentro do ônibus. Órfãos, pais sem família e jovens perdidos para sempre ficavam para trás e eu permanecia de pé dentro do ônibus. Meu corpo tremia e senti um cobertor sendo colocado em minhas costas. Quando meus olhos fecharam, encontrei meus filhos e chorei pelo meu egoísmo.
Música: Pyramid Song
Banda: Radiohead
Álbum: Amenesiac
Sou o fim. Pessoas engravatadas correm na chuva para pegar o metrô. Uma delas ficará comigo depois de perder os sentidos na escada. Uísque definha de garrafas caras em happy-hours que cheiram a cigarro e umidade. Ele bebe sua última dose antes de ser arrastado por um caminhão. Crianças desenham com os dedos em vidros de ônibus escolares. Uma delas ficará presa nas ferragens. Táxis buzinam sua impaciência cidade adentro. Um motorista não resistirá aos primeiros-socorros. Cachorros são levados para passear em bandos por parques repletos de estátuas de heróis nacionais pichadas. Todos sairão correndo assim que ouvirem o barulho. Sinaleiras trocam de cor. Duas meninas se encontram no horário do recreio e se abraçam. Verei-as repetir isso sempre. Irmãos tomam café e falam sobre como voltar a conversar. Terão outros dias difíceis, mas saberão o que fazer. Pai busca filho na escola e pela primeira vez entra para vê-lo brincar. Serão anos tentando recuperar o tempo perdido. Executivo chama equipe para agradecer pela paciência em um ano difícil. Nunca mais estará sozinho. Casal olha para as malas prontas e decide tentar outra vez. Aceitarão as próximas fraquezas. Médico avisa que não desistirá de fazê-la andar novamente. Os progressos serão poucos, mas admiráveis. O choro irrompe a sala de parto. Sou o começo.
Banda: Radiohead
Álbum: Amenesiac
Sou o fim. Pessoas engravatadas correm na chuva para pegar o metrô. Uma delas ficará comigo depois de perder os sentidos na escada. Uísque definha de garrafas caras em happy-hours que cheiram a cigarro e umidade. Ele bebe sua última dose antes de ser arrastado por um caminhão. Crianças desenham com os dedos em vidros de ônibus escolares. Uma delas ficará presa nas ferragens. Táxis buzinam sua impaciência cidade adentro. Um motorista não resistirá aos primeiros-socorros. Cachorros são levados para passear em bandos por parques repletos de estátuas de heróis nacionais pichadas. Todos sairão correndo assim que ouvirem o barulho. Sinaleiras trocam de cor. Duas meninas se encontram no horário do recreio e se abraçam. Verei-as repetir isso sempre. Irmãos tomam café e falam sobre como voltar a conversar. Terão outros dias difíceis, mas saberão o que fazer. Pai busca filho na escola e pela primeira vez entra para vê-lo brincar. Serão anos tentando recuperar o tempo perdido. Executivo chama equipe para agradecer pela paciência em um ano difícil. Nunca mais estará sozinho. Casal olha para as malas prontas e decide tentar outra vez. Aceitarão as próximas fraquezas. Médico avisa que não desistirá de fazê-la andar novamente. Os progressos serão poucos, mas admiráveis. O choro irrompe a sala de parto. Sou o começo.
Artista: Jimi Hendrix
Álbum: Experience Hendrix – The Best of Jimi Hendrix
Música: Manic Depression
Você pode me desejar todos os piores engarrafamentos e todas as crianças chorando em ônibus lotados. Você pode me dizer todas as frases de livros de auto-ajuda ou todas as histórias picantes da biografia de Frank Sinatra. Você pode regar minhas plantas de plástico, enxugar meu rosto em cem toalhas brancas e ligar para todos os concursos de auditório que pedem a sua interatividade em domingos familiares. Você pode andar quilômetros de ruas arborizadas e pensar em diversas artimanhas para me ver sorrir. Você pode ligar todos os aquecedores e implorar aos seus vizinhos para pararem de fumar tão alto. Você pode amar seus pais e amar seus filhos. Você pode me pedir para parar de escrever ou parar de ouvir você.
Eu posso acomodar minha raiva entre os piores engarrafamentos e colocar minhas mãos em vão para evitar os riscos que as crianças chorando traçam nos meus pensamentos. Eu posso queimar todos os livros de auto-ajuda como fez Hitler em seus arquivos quando Berlin já não tinha esperança e eu posso fingir que valorizo as histórias de Sinatra que saem das notinhas de pé de página de jornal que você leu horas atrás. Eu não tenho plantas de plástico e minhas toalhas todas precisam nascer de novo no lugar de todos os concursos monocórdicos de domingos familiares. Eu não ando por ruas arborizadas por pura preguiça e perco meus melhores dias pensando em como não ser o que não quero ser. Eu ligo os aquecedores e espero que eles me acolham na sua frieza de função. Eu absorvo a fumaça das minhas roupas porque não tenho coragem de abraçar os vícios que me deixariam mais perto do céu. Eu posso amar seus pais e posso amar seus filhos, mas serei bom apenas aos meus. Eu posso parar de escrever e sempre que eu tento eu consigo. E então não é mais uma tentativa. Eu posso pedir a você que pare de me ouvir. Então pare. Aqui.
Álbum: Experience Hendrix – The Best of Jimi Hendrix
Música: Manic Depression
Você pode me desejar todos os piores engarrafamentos e todas as crianças chorando em ônibus lotados. Você pode me dizer todas as frases de livros de auto-ajuda ou todas as histórias picantes da biografia de Frank Sinatra. Você pode regar minhas plantas de plástico, enxugar meu rosto em cem toalhas brancas e ligar para todos os concursos de auditório que pedem a sua interatividade em domingos familiares. Você pode andar quilômetros de ruas arborizadas e pensar em diversas artimanhas para me ver sorrir. Você pode ligar todos os aquecedores e implorar aos seus vizinhos para pararem de fumar tão alto. Você pode amar seus pais e amar seus filhos. Você pode me pedir para parar de escrever ou parar de ouvir você.
Eu posso acomodar minha raiva entre os piores engarrafamentos e colocar minhas mãos em vão para evitar os riscos que as crianças chorando traçam nos meus pensamentos. Eu posso queimar todos os livros de auto-ajuda como fez Hitler em seus arquivos quando Berlin já não tinha esperança e eu posso fingir que valorizo as histórias de Sinatra que saem das notinhas de pé de página de jornal que você leu horas atrás. Eu não tenho plantas de plástico e minhas toalhas todas precisam nascer de novo no lugar de todos os concursos monocórdicos de domingos familiares. Eu não ando por ruas arborizadas por pura preguiça e perco meus melhores dias pensando em como não ser o que não quero ser. Eu ligo os aquecedores e espero que eles me acolham na sua frieza de função. Eu absorvo a fumaça das minhas roupas porque não tenho coragem de abraçar os vícios que me deixariam mais perto do céu. Eu posso amar seus pais e posso amar seus filhos, mas serei bom apenas aos meus. Eu posso parar de escrever e sempre que eu tento eu consigo. E então não é mais uma tentativa. Eu posso pedir a você que pare de me ouvir. Então pare. Aqui.
Música: I need love
Cantora: Sam Phillips
Álbum: Trilha do filme Stealing Beauty
Simone abriu a janela e viu a fumaça do café ganhar a rua, diante das luzes brancas dos postes públicos e dos desejos privados e incompletos. A luz do banheiro piscou duas vezes até permanecer ligada para Luiz. A água da torneira da pia banhou a barba mal-feita e os olhos umedecidos previamente. Os dedos de Simone teclavam mudos na caneca de café. Luiz entrou no quarto e abriu o armário e com as portas vieram os pôsteres de shows locais colecionados a dois. O ranger do armário cortava Simone junto com os primeiros motores de ônibus que arrancavam com força. Luiz empilhava as roupas revendo a madrugada de conversas e conclusões que permanecia julgando maduras. Sabia que não levaria fotos, mas as fotos o levariam com Simone. Pensou em dizer mais algumas coisas, frases de homenagem, mas sabia que não era disso. Simone então se voltou para dentro do quarto.
- Quer café?
- É cedo.
- Eu sei. É bom terminar cedo. Pena que a gente não se deu conta disso antes.
Luiz esboçou um sorriso, sempre amaria a ironia que costurou os corações degenerados dos dois.
- A gente esqueceu de decidir sobre os pôsteres - disse ela fechando as portas do armário.
- Vamos deixar aí para os próximos moradores, sempre achei curioso ver um apartamento pra morar e encontrar pedaços da vida de alguém em adesivos de surf shops e revistas semanais perdidas.
Simone balançou a cabeça e sorriu diante do comentário, como sempre fazia. Assoprou o café e perguntou enquanto Luiz recolhia alguns livros:
- Será que depois dessa, a gente perdeu pra sempre aquela inocência de descobrir como é amar e tudo aquilo?
- Pois é, difícil aceitar isso, mas eu acho que sim. Só que eu acho que daqui a algum tempo, não sei quando, finalmente, vamos tentar dar um jeito de aceitar que as coisas continuam de qualquer maneira, mesmo que essa “virgindade” tenha ido embora pra sempre. Alguma coisa vai tomar o lugar dela.
- Tu já sabe o quê? – Simone perguntava, olhando algumas fotos empilhadas junto à cômoda.
Sem ouvir resposta depois de alguns segundos, Simone voltou-se para Luiz e ali ficaram, com o café esfriando, as luzes se apagando e o chumbo das nuvens de inverno se anunciando pela janela.
Cantora: Sam Phillips
Álbum: Trilha do filme Stealing Beauty
Simone abriu a janela e viu a fumaça do café ganhar a rua, diante das luzes brancas dos postes públicos e dos desejos privados e incompletos. A luz do banheiro piscou duas vezes até permanecer ligada para Luiz. A água da torneira da pia banhou a barba mal-feita e os olhos umedecidos previamente. Os dedos de Simone teclavam mudos na caneca de café. Luiz entrou no quarto e abriu o armário e com as portas vieram os pôsteres de shows locais colecionados a dois. O ranger do armário cortava Simone junto com os primeiros motores de ônibus que arrancavam com força. Luiz empilhava as roupas revendo a madrugada de conversas e conclusões que permanecia julgando maduras. Sabia que não levaria fotos, mas as fotos o levariam com Simone. Pensou em dizer mais algumas coisas, frases de homenagem, mas sabia que não era disso. Simone então se voltou para dentro do quarto.
- Quer café?
- É cedo.
- Eu sei. É bom terminar cedo. Pena que a gente não se deu conta disso antes.
Luiz esboçou um sorriso, sempre amaria a ironia que costurou os corações degenerados dos dois.
- A gente esqueceu de decidir sobre os pôsteres - disse ela fechando as portas do armário.
- Vamos deixar aí para os próximos moradores, sempre achei curioso ver um apartamento pra morar e encontrar pedaços da vida de alguém em adesivos de surf shops e revistas semanais perdidas.
Simone balançou a cabeça e sorriu diante do comentário, como sempre fazia. Assoprou o café e perguntou enquanto Luiz recolhia alguns livros:
- Será que depois dessa, a gente perdeu pra sempre aquela inocência de descobrir como é amar e tudo aquilo?
- Pois é, difícil aceitar isso, mas eu acho que sim. Só que eu acho que daqui a algum tempo, não sei quando, finalmente, vamos tentar dar um jeito de aceitar que as coisas continuam de qualquer maneira, mesmo que essa “virgindade” tenha ido embora pra sempre. Alguma coisa vai tomar o lugar dela.
- Tu já sabe o quê? – Simone perguntava, olhando algumas fotos empilhadas junto à cômoda.
Sem ouvir resposta depois de alguns segundos, Simone voltou-se para Luiz e ali ficaram, com o café esfriando, as luzes se apagando e o chumbo das nuvens de inverno se anunciando pela janela.
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