Eu não lembro de ter visto chover em vinte e quatros de dezembro. É meu terceiro Natal morando sozinho, mas é o primeiro Natal em que estou perto de ti, mesmo que não olhemos para a mesma árvore quando a meia-noite chegar e as famílias abraçarem-se e as crianças rasgarem os papéis de presente e os sorrisos tomarem conta, ainda que a vida nos seja estranha e bela sem avisar em que ordem essas coisas se apresentam.
Existe a vida que vivemos que às vezes fazemos competir injustamente com a vida que teimamos em imaginar quando esquecemos de fazer a melhor parte: jogar-se diante da possibilidade, acreditar nas coisas que apenas músicas diziam num inglês que evita o contato direto com a perda, o sonho e o desejo. Jogar-se como quem corre para a rua para ver a chuva de vinte e quatro de dezembro cair e limpar de uma vez para todas as más lembranças, as histórias imerecidas e os dias em que derrubávamos nossa auto-estima feito Tyson nos anos 90. Jogar-se esperando o arrebatamento insuperável de olhar pra ti e enxergar que todos os minutos se transformaram em instantes singulares feitos de trilhões de coisas pra ti dizer e trilhões de coisas pra ouvir de ti.
Eu não lembro de ouvir o vento abrir e fechar minhas janelas ao seu bel prazer em vinte e quatro de dezembros. Mas agora eu lembro de te ouvir num vinte e quatro de dezembro. Então vamos para a chuva e abrir nosso presente e ganhar nosso futuro.
Esse blog começou guardando os textos publicados semanalmente no site argumento.net, coluna Soundtracks. Mas isso tudo mudou há horas.
Sábado, Dezembro 24, 2005
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